Uma febre chamada Big apple

Se você está lendo este texto, provavelmente conhece a Big apple, coreografia de Frankie Manning celebrada pelas comunidades de lindy hoppers do mundo todo, e talvez já tenha se perguntado sobre como ela surgiu. Sua origem, em um contexto mais amplo, é a história de como, em meio ao preconceito e a segregação dos anos 1930, uma dança afroamericana tornou-se um sucesso nacional. É uma narrativa com muitos protagonistas espalhados pelos mais diversos lugares dos EUA.

Afinal, como surgiu a Big apple?

1936 é o ano em que começa a nossa história. Três estudantes passeiam à noite na cidade de Columbia, no estado da Carolina do Sul (EUA), quando ouvem música — boa música — vinda de um antigo edifício na rua Gates, hoje chamada rua Park. O prédio, que fora uma sinagoga, agora abriga uma recém-inaugurada juke joint — um estabelecimento exclusivo para negros, surgido por conta da segregação, que funciona como um espaço de divertimento, com música e dança, e serve refeições e bebidas. Uma placa na frente do edifício informa o nome do lugar: Big Apple Night Club.

Em busca de diversão, os jovens Donald Davis, Billy Spivey e Harold “Goo Goo” Wiles, apesar de serem brancos, resolvem entrar, criando uma situação inusitada para os proprietários Frank “Fat Sam” Boyd e “Big Elliot” Wright; no contexto da segregação sulista, pessoas de diferentes “raças” confraternizando poderia até virar caso de polícia. No final, concordam com a presença dos rapazes com duas condições: eles pagariam 25 centavos de ingresso e ficariam restritos ao mezanino (o local que, na antiga sinagoga, era reservado às mulheres), isolados dos demais clientes. Eles aceitam. Dali podem ver toda a dança que acontecia no andar de baixo.

O Big Apple Night Club, juke joint instalada em uma antiga sinagoga.

O Big Apple Night Club, juke joint instalada em uma antiga sinagoga.

Uma jukebox toca swing jazz. As pessoas dançam em roda, sozinhos ou em casal, com um caller (também chamado leader) cantando os passos que os dançarinos farão a seguir. Boa parte do repertório dos movimentos era comum a outras jazz dances, como truckin’ e suzie-q, outros tantos eram expressões locais. Quando o caller grita “shine!”, um dançarino ou casal toma o centro da roda, exibindo o seu melhor movimento. Na raiz da dança, é possível ver ecos da Ring shout, uma dança ritual popular desenvolvida pelos escravos estadunidenses em fins do século XVIII e que se perpetuou até o século XX, bastante comum na Carolina do Sul.

Os três jovens ficaram muito impressionados com o que viram ali. Voltaram outras noites, sempre restritos ao mezanino, trazendo mais e mais amigos para conhecer aquela dança. Eles vinham à juke joint com os bolsos cheios de níqueis, que atiravam à pista, pedindo passos aos dançarinos e prevenindo-os de ficarem sem moedas para abastecer a jukebox — afinal, a música não podia parar. Àquela dança que tanto os magnetizava, e que para os próprios dançarinos não tinha nome, eles apelidaram de Big apple. Eventualmente, eles mesmos começaram a dançar em suas festas e reuniões ao estilo dos negros, mas não se achavam à altura deles; chavamam a sua versão de “Little apple”.

É no verão de 1937 que a Big apple começa a se difundir, quando jovens da Carolina do Sul e do Norte se encontram para passar férias em Myrtle Beach, uma estação de veraneio. Os dançarinos de Columbia estão ansiosos por compartilhar sua descoberta com os outros jovens e no final da estação, a dança já havia se espalhado. Em agosto daquele ano realizam-se os primeiros campeonatos de Big apple em Columbia e na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte. O que era uma dança de gueto passou a ser uma dança local; logo seria uma febre nacional.

Betty Henderson em 1937.

Betty Henderson em 1937.

O movimento começa a chamar atenção, e o caça-talentos Gay Foster aparece na região; sua tarefa é selecionar dançarinos para um show no Roxy Theater, em Nova York, na época o segundo maior teatro do mundo. Após fazer audições, ele seleciona 8 casais brancos para se apresentarem no teatro, entre eles Betty Henderson (que após vencer uma competição ficou conhecida como “Big apple Betty”) e Billy Spivey e Donald Davis, dois dos primeiros frequentadores brancos do Big Apple Night Club. Na noite de estreia, lembra Betty, a plateia foi à loucura: “as pessoas gritavam, urravam, batiam os pés”. Fizeram uma temporada de 3 semanas com 6 apresentações ao dia, todas com a casa cheia. Daí em diante, a Big apple será sensação no país todo.

Na plateia do Roxy Theater estava Arthur Murray, um famoso professor de dança com duas escolas em Nova York, que viu na Big apple uma oportunidade de negócio. Murray estilizou e padronizou a dança, reduzindo-a a alguns passos básicos, e montou um curso em 10 módulos de Big apple (é possível ver sua versão da dança aqui). Junto com algumas danças latinas, a versão “pasteurizada” da Big apple fez a fortuna da escola de Murray; — hoje chamada Arthur Murray International Inc. e contando com mais de 200 franquias. Segundo sua atual diretora, Georgia H. Theiss, a Big apple de Murray rompeu as barreiras raciais que impediam o swing de sair do Harlem, introduzindo-o ao mainstream da sociedade americana. Se não o fez sozinha, certamente ajudou.

Outra pessoa que reconheceu o potencial da Big apple foi Herbert White, o empresário dos Whitey’s lindy hoppers. Durante as apresentações no Roxy Theater, Frankie Manning e parte da companhia estavam em Hollywood gravando um filme com Judy Garland, Everybody sing (Edwin L. Marin, 1938), mas White estava em Nova York, e logo percebeu que aquela nova dança seria um sucesso. Escreveu um telegrama para Frankie descrevendo o número do Roxy Theater e pedindo para que ele coreografasse algo similar. Frankie conhecia os passos, mas evidentemente não entendeu nada — não dá para descrever uma dança numa carta. Porém, lembrou-se das rodas de Ring shout que viu ainda criança, quando passava as férias verão com seu pai na Carolina do Sul. “Eu me lembro da minha avó me empurrando para o meio da roda”, ele conta. “Eu não queria ir. Mas acho que foi assim que comecei a dançar.”

Juntando a dinâmica da roda com os passos de swing, Frankie montou uma coreografia para Everybody sing que acabou não sendo usada por conta de desavenças contratuais com o estúdio. De volta à Nova York, reformulou sua coreografia, que usaria um ano depois nas filmagens de Keep punching (John Clein, 1939 — veja aqui), quando a Big apple estava no auge de sua popularidade. Para o historiador Lance Benishek, da Universidade de Minnesota, a versão de Frankie deu um caráter de show à dança que surgira estritamente social. Durante alguns anos, a dança foi executada todo sábado à noite no Savoy Ballroom; e, embora a anunciassem sempre como uma competição de Big apple, apenas os dançarinos do Whitey’s lindy hoppers participavam da apresentação, que chegou a ter um palco construído especialmente para isso.

Quanto aos dançarinos sulistas, após a temporada no Roxy eles arrumaram um novo agente e, sob o nome de Billy Spivey’s Big apple dancers, fizeram uma turnê de seis meses por todos os Estados Unidos. A revista Life fez uma matéria de 4 páginas dizendo que 1937 seria lembrado como “o ano da Big apple”, e o filho do presidente Roosevelt dançou-a na Casa Branca na festa do seu noivado. A dança alcançou todos os extratos sociais e todas as idades, e até Whiston Churchill dançava a Big apple! Era tão popular que algumas casas de show tiveram que colocar na porta o aviso: “Desculpem, proibida a Big apple. Não temos espaço o suficiente”.

Matéria da revista Life sobre a Big apple em 1937.

Matéria da revista Life sobre a Big apple em 1937.

O fenômeno da Big apple aparece em filmes, revistas, musicais e shows. Tommy Dorsey e Teddy Wilson fizeram músicas inspiradas na dança. Aproveitando a onda, os Whitey’s lindy hoppers, em turnê pela Austrália e Nova Zelândia, trocaram momentaneamente seu nome para Whitey’s Big apple dancers. A febre alcançou o seu auge e, segundo Benishek, só não foi maior nos EUA do que o Twist e o Charleston.

Enquanto isso, em Columbia, lembra o jornalista Jeff Wilkinson, os frequentadores do Big Apple Night Club continuaram dançando noite após noite, ignorados pelos concursos de dança, pelos caça-talentos e por Hollywood até o prédio ser vendido e a juke joint fechada ainda em 1938.

No início dos anos 1940, a popularidade da Big apple decai rapidamente. Os jovens, segundo Wilkinson, perdem o interesse por uma dança que se tornou mainstream, incorporada pela geração dos seus pais e, assim, sem mais nenhum componente de rebeldia. A decadência do próprio swing não demoraria, e com ele todas as danças vinculadas ao jazz, dando espaço ao rock’n’roll.

Com o revival do swing, nos anos 1980, o interesse na dança ressurge. Lance Benishek encontra Betty Henderson (agora Betty Wood, seu nome de casamento) e juntos começam a ensinar a dança novamente (veja Benishek se apresentando aqui). Em 1988, celebram-se os 50 anos da Big apple em Columbia, a que se seguem outros eventos valorizando a dança.

A antiga sinagoga onde tudo começou foi tombada como patrimônio histórico em 1979. Em 1984, é movida do seu endereço original na rua Park, 1318, para o número 1000 da rua Hampton — mais ou menos um quarteirão de distância –, salvando da demolição o edifício histórico, que a seguir é restaurado. Sem dinheiro para mantê-lo, a Historic Columbia Foundation o vendeu a um casal de dançarinos que hoje mantêm e gerenciam o edifício, abrigando eventos de música e, é claro, dança. O significado disso é fácil de demonstrar a um lindy hopper: é só imaginar como seria se o Savoy Ballroom ainda existisse.

Moving the Big apple

A transposição da Big apple da rua Park, 1318, para o número 1000 da rua Hampton na madrugada do dia 25 de janeiro de 1984.

O Big Apple hoje

O Big apple após o restauro.

richard&breedlove dancing

Richard Durlach e Breedlove, os atuais proprietários do Big apple.

 

Referências
‘The music would just take you’, Jeff Wilkinson
‘You just got in a group and followed along’, Jeff Wilkinson
‘The South Carolina dance was social. It didn’t have the flash.’, Jeff Wilkinson
‘It helps identify and define our culture’, Jeff Wilkinson
The Big apple
Historic Big Apple building sold to become arts venue that attracts Columbia’s diversity, Clif Leblanc
Frankie Manning: Ambassador of Lindy Hop, Frankie Manning e Cinthia Millman
LIFE Magazine, 20 dez. 1937
LIFE Magazine, 9 ago. 1937
Vintage dance classes planned, Julie Wind
Arthur Murray International

Vídeos
Big apple em Londres
Big apple em “The spirit moves”
Big apple no filme “Start cheering” (1938)
Big Apple no Savoy Ballroom

Outras fontes
History of Big Apple
Big apple history
The Big apple
Interview With Betty Wood
Big apple dance, Wikipedia
Juke joint, Wikipedia
Ring shout
African American Ring Shouts, Azizi Powell
Ring shout, Wikipedia
Por que nos EUA não tem batucada?, Cynara Menezes

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